Negociando para um Senhor Ausente

"Negociai até que eu venha"

(Comentários realizados em 1911 sobre a parábola das minas, Lucas 19:20-27)


Um educado hindu visitou um missionário na Índia e disse a ele: "Nós reparamos que vocês, cristãos, não são tão bons quanto seu Livro". Enquanto eu lia essa história, me perguntei: "Se um hindu chegou a essa conclusão depois de acompanhar à vida de um missionário devoto, o que ele diria se pudesse nos ver em nossas terras natais?"


Se ele tivesse a oportunidade de comparar nossas vidas com o Livro que lemos e professamos valorizar, ele com certeza chegaria a essa conclusão muito mais rapidamente.


A Bíblia, a Palavra de Deus, fala de "alegria indizível e cheia de glória": quanto disso os cristãos sabem e vivem? Ela nos assegura que somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou; mas é essa a vida que estamos vivendo? Nela encontramos a vida cristã descrita como uma vida de serviço devotado, alegre e abnegado. Nossas vidas são assim? Ai de mim! Temos que confessar que há uma triste disparidade entre a Bíblia e as vidas que vivemos.


Arrisco-me a sugerir que uma razão para isso, talvez a mais importante, é que percebemos apenas vagamente que somos servos de um Senhor ausente; os privilégios e as responsabilidades desta posição não tomaram conta completamente de nossas almas e, consequentemente, vivemos muito para nós mesmos, o que significa uma existência estéril e sem alegria.


Não somos de nós mesmos; fomos procurados com amor maravilhoso e comprados por um grande preço; fomos elevados pela graça divina da morte para a vida, e isso com um alto propósito em vista, parte do qual é que possamos viver para Ele, nosso Senhor ausente, que morreu e ressuscitou por nós; mas até que estejamos sob o domínio desse fato, nossas vidas permanecerão comuns e ineficazes, elas não serão tão boas quanto a Bíblia registra em suas páginas.


Não há verdadeiro serviço sem salvação


Esta responsabilidade da qual falo é revelada para nós na parábola das minas, e deve-se observar que foi enquanto eles ouviam "estas coisas" (versículo 11) que o Senhor propôs a parábola ao povo. "Estas coisas" são encontradas no décimo versículo. "O Filho do Homem buscar e salvar o que se havia perdido". É com esta graciosa missão que o Senhor é revelado a nós no Evangelho de Lucas. As primeiras palavras como tendo saído dos abençoados lábios de Nosso Senhor Jesus registradas no Evangelho de Lucas são: "Não sabeis que devo tratar dos negócios de Meu Pai?".

Esse negócio era buscar e salvar os perdidos. Isso se torna mais evidente para nós à medida que lemos o Evangelho, e descobrimos nele que o desprezo e o ódio dos líderes dos judeus se manifestaram por causa desta única coisa. No capítulo 5, eles reclamam que Ele comia e bebia com publicanos e pecadores; no capítulo 7, eles O rebaixam como sendo amigo de publicanos e pecadores; no capítulo 15 eles murmuram porque "este homem recebe pecadores;" e no capítulo 19 eles novamente murmuram porque "Ele foi para ser hóspede de um homem que é um pecador." Mas Ele não deu ouvidos ao escárnio dos fariseus, pois Ele amava os perdidos e pecadores com um grande amor, e para cumprir Sua missão para com eles o Espírito do Senhor estava sobre Ele, e "Quão formosos os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas!" enquanto Ele trazia boas novas e anunciava paz para essas almas sobrecarregadas de culpa. Mas se Ele veio para buscar e salvar os perdidos, foi para que Ele pudesse enviá-los quando encontrados e salvos para fazer negócios para Ele durante Sua ausência, assim como Ele tratou os negócios de Seu Pai quando esteve aqui.


Este é o negócio da vida de cada pessoa salva; não pode ser corretamente empreendido à parte do conhecimento de Cristo como Salvador, pois sem isso ainda seríamos cativos, precisando de libertação, e assim não seríamos livres para servi-Lo; além disso, o único motivo para o serviço, Seu amor por nós, também estaria faltando se Ele não fosse conhecido como Salvador. É quando pensamos no que Ele fez para nos salvar, e na força do amor que O moveu a fazê-lo, que somos constrangidos, por este mesmo amor, a viver para Ele.


Consideremos corretamente este assunto: Ele veio para nos buscar e salvar; para isso Ele se entregou; sim, sofreu a angústia indizível do Calvário, derramou seu sangue e passou pela escuridão da morte, a fim de realizar este propósito de amor imortal. A única resposta correta que podemos dar a Ele para isso é nos rendermos a Ele como Seus servos para sempre. Ele sabia que quando entendêssemos corretamente Seu amor por nós, desejaríamos fazer isso; que seria um privilégio para nós servi-Lo: fazer negócios para Ele enquanto Ele está fora, até que Ele volte; e sabendo disso, Ele deu a cada um de nós uma "mina" (Nota do tradutor: na versão em inglês a palavra é "pound", em português "libra", a moeda britânica, ou seja, algo de valor com que podemos fazer negócio até que Ele venha).


"Mas os seus concidadãos o odiavam" (versículo 14)


Mas nosso serviço é no mundo que O odeia. Não tentemos disfarçar ou afastar esse triste fato; os concidadãos dele disseram: "Não queremos que este homem reine sobre nós"; e essa decisão nunca mudou. Devemos encarar isso ao avaliar nossa posição em relação ao mundo. Ele odeia Aquele que nos ama; e somos chamados a fazer negócios para Ele nesse mesmo mundo. Se o mundo O odeia, e somos fiéis a Ele, o mundo nos odiará também, e no Senhor, como Seus representantes, negociando para Ele, seremos confrontados pela oposição e teremos que suportar tribulações. O tempo não nos permitirá recorrer às muitas passagens de verdade imutável para provar isso, mas penso que uma deve ser suficiente: "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também vos perseguirão a vós... Aquele que me odeia odeia também a meu Pai... Odiaram-me sem causa" (João 15:18-25).


É inútil alegar que o mundo melhorou desde então: ele pode ter se tornado mais hábil em disfarçar a superfície das coisas e ter feito leis mais rigorosas para conter de forma mais eficaz as paixões ferozes dos homens visando uma paz comum, pois ama os seus (João 15:19); mas ainda é o mundo que odeia e rejeita a Cristo; e se não experimentamos seu ódio e desprezo é porque não somos fiéis a Ele.


O mundo só derramou vergonha e desprezo sobre nosso Senhor, o mundo não tinha uma coroa para Sua fronte sagrada, exceto uma de espinhos, e na avaliação do mundo Ele mereceu a cruz de um malfeitor; que nunca sejamos "culpados da traição" de buscar conforto e honra no lugar onde Nosso amado Senhor foi rejeitado e desprezado.


"Ele chamou dez servos seus e entregou-lhes dez minas"


Duas coisas até aqui estão claras, a saber, o Filho do Homem veio para nos salvar, para que pudéssemos servi-Lo; e o lugar do nosso serviço é no mundo onde Ele é odiado. É importante agora ver que Ele também nos confiou os meios para o nosso serviço. Ele deu a cada um de Seus servos uma mina, algo de valor com a qual negociar. Aqui não é uma questão de talentos como em Mateus 25 , onde um recebeu mais do que outro, mas uma mina para cada servo, a mesma quantidade para cada servo.


Aos seus próprios olhos, você pode se considerar muito pequeno e pensar não ser capaz de tomar o lugar de um servo, mas foi dado a você algo preciosíssimo, da mesma maneira e medida àqueles que parecem grandes e talentosos, e você é responsável por ser ativo com essa preciosidade, assim como os demais são. Eu sugiro que a mina representa a maneira pela qual Deus é apresentado a nós no Evangelho de Lucas, como glorioso em Sua graça. O conhecimento disto nos é dado; a glória de Deus brilhou em nossos corações na face de Jesus Cristo. "Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Mas temos este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Coríntios 4:6-7).


Que preciosidade é isso! Que tesouro precioso para carregar conosco — o conhecimento de Deus! Irmão, medite nisso. Ao se levantar de manhã, você pode dizer: "Eu conheço Deus. Ele foi revelado a mim na glória de Sua graça, pelo Senhor Jesus Cristo. Eu saio, carregando este tesouro inestimável em meu coração, para o mundo que não O conhece, para colocá-lo em circulação para a glória de Cristo — não para mantê-lo escondido dentro de minha própria consciência, mas para deixá-lo brilhar, para passá-lo para outros, para que eles possam ser enriquecidos como eu fui, e que este tesouro possa multiplicar na terra". Um tesouro virar 10 tesouros, 5 tesouros.


Podemos dizer aos homens que conhecemos um Deus cuja compaixão é sem limites; que nunca um clamor a Ele por piedade foi ou será recusado enquanto este dia da graça durar. Podemos dizer-lhes que o coração de Deus é movido por causa de sua aflição, e que Sua misericórdia salta para encontrá-los em sua miséria. Podemos dizer-lhes isso, pois nós mesmos provamos a verdade disso: somos testemunhas vivas da incomparável graça de nosso Deus, nosso Pai.


Tal pensamento, se constantemente presente conosco, não acrescentaria dignidade às nossas vidas? Não nos faria sentir que aqui há algo pelo qual viver? Não nos tornaria prestativos em sustentar a palavra da vida e brilhar como luzes no mundo ( Filipenses 2:15-16)?


Este é nosso privilégio incomparável, mas também é nossa responsabilidade; nosso Senhor tem o direito de nos comandar, e é para que possamos atender aos Seus negócios que Ele nos salvou. Não podemos, não devemos, ignorar isso. Conheci um homem cristão que disse que não queria aprender muita verdade, porque a luz aumentava a responsabilidade, e ele já tinha o suficiente. Mas não podemos tratar o assunto dessa forma, pois nossa responsabilidade permanece, e está chegando o dia em que nosso Senhor nos chamará para prestar contas sobre o quanto ganhamos negociando com esta mina.


Evidentemente, então, este é o principal negócio de nossas vidas. Não estamos aqui, em primeiro lugar, para sermos mecânicos, lojistas ou profissionais, para cuidar da casa ou criar os filhos, muito menos para viver vidas de facilidade egoísta; mas para negociar para nosso Senhor ausente. Nossas próprias vidas são Dele, assim como a mina que Ele nos entregou. Podemos ser capazes de aplicar a mina à melhor taxa de juros e seguir nossos próprios negócios e guiarmos o lar, ombro a ombro com os homens nos assuntos desta vida. Mas isso só será quando, nessas coisas, servirmos ao Senhor Cristo. Pode ser, por outro lado, que Ele queira que alguns de nós carreguem a mina conosco, em trabalho cuidadoso para Ele, nas ruas e vielas da cidade; ou nas estradas e becos onde os caídos e perdidos se desviam, pecam e se escondem; ou pode ser Sua vontade que outros vão para terras distantes: nessas coisas Ele deve direcionar e comandar, cabe a nós obedecer, servir e negociar.


"Negociai até que eu venha"


Ouvi falar de alguns que alegaram ter se aposentado do ministério; mas aqui está um ministério do qual ninguém tem o direito de se aposentar, mesmo que tivesse o desejo; pois a cada um de Seus servos — a você, a mim e a todos os outros — Ele disse: "Negociai até que Eu venha." Estas são palavras solenes para nossa consideração, e especialmente quando nos lembramos de quanto do tempo passado foi desperdiçado em buscas egoístas, quanto dele foi apenas tempo perdido; mas também são palavras que devem agir como um tônico poderoso para nossas almas para o futuro, pois nos dizem que nosso Senhor está voltando, e do que Ele espera de nós enquanto isso. Sim, Ele está voltando; veremos Aquele a quem, não tendo visto, amamos; e o que isso significará para nós?


"Se aqui na terra os pensamentos do amor de Jesus

  Elevam nossos pobres corações acima deste mundo cansado;

Se mesmo aqui provo o gosto das fontes celestiais

  Assim alegra o espírito do peregrino que canta:


O que será vê-Lo?


O que o sol de Sua glória provará?

  Qual a plenitude sem mistura de Seu amor?

Que aleluias Sua presença levantará?

  O que senão a mais alta explosão eterna de louvor!"


O Dia do Juízo Final


Quando Ele vier, Seus servos serão chamados até Ele, a quem Ele deu a mina, para que Ele possa saber quanto cada um dos Seus ganhou negociando; e enquanto pensamos neste lado de Sua vinda, pensamentos responsáveis e solenes nos tomam, pois devemos sentir quão mal usamos nossas oportunidades.


No entanto, há aqui encorajamento para nós, pois descobrimos que um servo ganhou dez libras com sua negociação, e por que não deveríamos ser como ele? Dez parece representar nas Escrituras a medida das exigências do Senhor aos homens (Dez Mandamentos, por exemplo), e podemos concluir que há graça com nosso Senhor para que nos capacitemos a dar um retorno total a Ele naquilo que Ele nos confiou; se houver alguma falha, é do nosso lado. Mas tudo, seja muito ou pouco, será corretamente avaliado por Ele, e nada perderá sua recompensa que foi feita por Ele.


Um servo que não conhecia o Senhor


Mas um servo escondeu sua mina em um lenco; era um estorvo para ele, algo, talvez, do qual ele se envergonhava — pois o evangelho de Deus é loucura aos olhos dos sábios da terra — então ele a colocou fora de vista, tanto da sua visão quanto a de seus companheiros, e se ele fazia algum negócio, ele o fazia com sua própria moeda vil e para seu próprio enriquecimento.


Ele era servo por profissão, mas apenas de nome; ele não conhecia o Mestre, sua própria confissão prova isso, embora ele imaginasse que O conhecia quando disse: "Eu sabia que Tu eras um Homem severo".


O Senhor é um Homem austero, um Mestre severo, que colhe onde nunca semeou e exige onde nunca deu? Quem entre todos nós que O conhecemos Lhe dará tal caráter? Não, temos outras coisas a dizer sobre Ele; provamos que Ele é exatamente o inverso disto. Podemos dar testemunho do fato de que o coração mais terno do universo bate no peito de nosso Senhor Jesus. Não vimos nenhuma cara fechada, nem ouvimos palavras duras de Seus lábios. Nosso serviço tem sido pobre e falho, muitas vezes pensamos mais em nós mesmos do que no Mestre a quem servimos. Mas isso não O mudou; Sua terna piedade não falhou, e nossos próprios erros se tornaram oportunidades para a manifestação de uma graça que é tão constante quanto gratuita. Conhecendo-O como o conhecemos, devemos concluir que o homem que falou como o servo falou não O conhecia. Ele era um "servo mau", que não havia apreciado a mina confiada a ele, nem amado o Mestre que a deu.


Há tais hoje. Fazemos bem em nos testar. Conhecemos o Senhor? Se o conhecemos, nós O amamos. Apreciamos o tesouro que nos foi confiado? Se a resposta for sim, estamos negociando com ela.


Mas o tempo é curto. Que possamos nos lançar em rendição total e irrestrita aos pés de Cristo; confessar ali o fracasso do passado e buscar graça e poder para preencher o futuro somente para Ele. Sua doação é sempre maior do que nosso pedido; e, à medida que recebemos Dele, podemos negociar por Ele, e o mundo não será abalado pelas graves inconsistências que frequentemente se encontram entre nós e nosso Livro.

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